segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Maurice


Maurice, de E. M. Forster
Inglaterra, 1971
Publicado no Brasil pela Editora Globo em 2006, em tradução de Marcelo Pen.

Edward Morgan Forster já era conhecido como o autor de Retorno a Howard's End e Um Quarto com Vista, quando começou a escrever Maurice entre 1913 e 1914, às vésperas da I Guerra. Segundo suas instruções, o romance porém só foi publicado após sua morte, em 1971 - para um inglês eduardiano como Forster, sair do armário era pior que a morte. O livro é dedicado "para um ano melhor".

Maurice nasceu de uma visita de Forster a um casal de amigos, o poeta Edward Carpenter e seu companheiro George Merrill, que viviam juntos e felizes apesar da época em que nasceram. Para Forster, que pertencia à geração que viu Oscar Wilde ser condenado, escrever uma história de amor homossexual com final feliz era uma necessidade de afirmação política. No pós-escrito ao livro, que acompanha a edição da Globo, Forster diz que "um final feliz era imperativo. Eu estava determinado que, ao menos na ficção, dois homens poderiam se apaixonar e assim permanecer eternamente dentro do espaço que a ficção permite". O grande conflito que o livro impõe aos seus personagens, mais do que suas identidades sexuais, acaba sendo a diferença de classes.
“Uma natureza limitada como a de Maurice parece insensível, pois precisa de tempo até mesmo para sentir."
Uma Downton Abbey gay
Em Cambridge, onde estuda, o jovem de classe média Maurice conhece o aristocrático Clive Durham, herdeiro rico do interior. A atração é imediata. Os dois embarcam num relacionamento que, por força da interpretação de Clive para o Banquete e o Fedro de Platão, se mantém casto, ao crer que a consumação física o tornaria vulgar. O relacionamento atravessa a expulsão de Maurice da faculdade (por motivos alheios ao romance dos dois) e se alterna entre a propriedade rural de Penge, da família de Clive, e o apartamento londrino que os dois dividem enquanto "solteirões na cidade".
"Despertara tarde para a felicidade, mas não para a força, e podia sentir uma alegria austera, como a de um guerreiro que ficou sem lar, mas que permanece plenamente armado.”
Mas Clive, após uma viagem decepcionante para a Grécia, supera o que acredita ser apenas uma fase, casa-se de modo burocrático e mantém um relacionamento com a esposa onde até o sexo é uma questão formal. Maurice, incapaz de lidar com a rejeição, se entrega à depressão, frequentando sessões de hipnose em busca de uma "cura gay". Aos poucos aceita a ideia de viver uma meia-vida, ocupando um espaço de semi-invisibilidade que cruza com outra: a social, na figura do jovem guarda-caças Alec. Há encontros e desencontros que culminam num momento tocante dentro do Museu Britânico, que conduz à um confronto final e tristonho entre Maurice e Clive.
“Eu teria sido seu até o fim se quisesse ficar comigo, mas agora sou de outra pessoa - não posso ficar me lamuriando para sempre - e ele é meu de um modo que o ofende, mas por que não para de ficar sendo ofendido e se ocupa de sua própria felicidade?"
Gregory Woods nota que, se Maurice tivesse um final trágico, teria sido tranquilamente publicado em sua época, quando a figura do homossexual era aceita contanto atada à necessidade de um final punitivo. "Forster reconheceu o que acontecia na literatura do recém-nomeado "indivíduo homossexual", mas não conseguia encontrar os recursos com o qual dar conta da nova tendência". De modo tragicômico, ao ser publicado em 1971, apenas dois anos após Stonewall, já não havia mais escândalo algum para causar.

Invisibilidades
A mesma invisibilidade que oculta Maurice dos olhos da sua sociedade, possibilita que ele viva plenamente e planeje sua fuga com Alex - para o interior, para o campo, para o espaço mítico dos bosques. O livro foi adaptado para os cinemas em 1987 pela dupla Ismail Merchant e James Ivory, dupla que se consagrara pouco antes com o oscarizado Uma Janela para o Amor (adaptado do Um Quarto com Vista), que nos anos seguinte ainda adaptaria Retorno a Howard's End de Forster e o Vestígios do Dia de Kazuo Ishiguro. Maurice concorreu ao Oscar de Melhor Figurino e lançou a carreira do então novato Hugh Grant como Clive e de Rupert Graves (o Lestrade da série Sherlock) como Alec.

Sobre o filme, Roger Ebert notou o grande desafio de relacionamento entre Maurice e Alec não era tanto a barreira do preconceito sexual, quando a questão de classes, cujas barreiras rígidas não dariam aos dois recursos para superar um relacionamento para além da atração sexual.

Curiosamente, as duas figuras reais que inspiraram o livro romperam de fato essa barreira: Edward Carpenter, poeta pioneiro no ativismo pelos direitos dos homossexuais, viveu por trinta anos junto de George Merrill, que tinha origem humilde e sem educação formal. Foi numa visita à casa de ambos que, num gesto de carinho informal, o modo como Merrill tocou as costas do rígido e enrustido Forster, que este teve a ideia de uma história sobre um relacionamento duradouro entre dois homens sendo construido. Em tempos que o casamento igualitário volta à pauta, a relevância de Maurice foi discutida num artigo da revista New Yorker.

E. M. Forster
Depois que Maurice foi escrito, houve uma mudança na atitude do público quanto a esse aspecto: a conversão da ignorância e terror em familiaridade e desprezo. Não foi a mudança para o qual Edward Carpenter havia lutado. Ele ansiara por um reconhecimento generoso de uma emoção e a reintegração de algo primitivo ao dia-a-dia. (...) Não haviamos percebido que aquilo que o público realmente abomina na homossexualidade não é a coisa em si, mas o fato de ser obrigado a pensar nela. Se ela pudesse ser inserida em nosso meio de forma desapercebida ou então fosse legalizada da noite para o dia, (...) haveria poucos protestos. Infelizmente, só pode ser legalizada por um parlamento, e membros do parlamento são forçados a pensar ou fingir que pensam. - E. M. Forster

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Wilde e o "mito da bicha trágica"



“Wilde foi, num sentido muito amplo, um trágico, mesmo que desde então seja mais lembrado como um autor de comédias. Do mesmo modo que sua queda influenciou noções subseqüentes de bichice afeminada para um país inteiro; como se fosse um natural e inevitável efeito colateral da própria homossexualidade. Wilde é o modelo da bicha trágica do século vinte. Quando uso a palavra ‘trágico’ aqui, não quero simplesmente dizer desafortunado, triste ou condenado a morrer. Estou me referindo à uma qualidade literária específica de determinismo que marca a bicha como uma versão inglória do herói trágico. (...) Esta característica e esses personagens tem aparecido com mais consistência em romances publicados entre os julgamentos de Wilde em 1895 e o crescimento dos movimentos sociais liberalizantes do final dos anos 1960 e início dos anos 1970.” - Gregory Woods, A History of Gay Literature.

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Auriga

O Auriga, de Mary Renault
The Charioteer
Inglaterra, 1953
Lançado no Brasil pela editora Mandarim em 1996. Tradução de Aulyde Soares Rodrigues.

Num hospital militar no interior da Inglaterra, durante a II Guerra, o soldado Laurie "Spud" Odell, de vinte e poucos anos, se recupera de um ferimento na perna que quase o matou, na evacuação de Dunquerque. Ali ele se aproxima de Andrew, um jovem Objetor Consciente - um pacifista que, por se recusar a ir para a guerra por razões morais ou religiosos, é colocado sob prisão e trabalhos forçados). Mas logo depois, Odell reencontra um amigo de infância, Ralph Lanyon, que fora expulso do colégio por motivos obscuros e a quem Laurie costumava idolatrar. Num flashback, ficamos sabendo que no dia de sua expulsão, Ralph entregara para Laurie um exemplar do Fedro de Platão, o que por si só já era um código de identificação.

Laurie é inteligente, com uma grande sensibilidade cultivada por leituras clássicas. Divide seus dias entre o hospital, onde mantém um relacionamento platônico com Andrew, e os dias de folga, em que convive com Ralph e frequenta a comunidade clandestina de homossexuais servindo nas forças armadas.
"Só depois que se tornou impossível é que ficou tão fácil. É como a lei seca, com os bêbados e os ladrões fazendo fortunas com a bebida, todos perdendo completamente o gosto pela bebida (...) Você não pode fazer um bom vinho numa banheira do sotão. Precisa de sol, chuva e ar fresco, precisa ter orgulho no seu trabalho e precisa contar ao mundo o que está fazendo. Só que você pode viver sem bebida, se precisar, mas não pode viver sem amor".
Um dos momentos centrais do livro, quando Laurie reencontra Ralph pela primeira vez desde o colégio, se dá durante uma longa festa onde os convidados não param de chegar e as pessoas vão ficando progressivamente mais bêbadas. A autora vai desfraldando uma gama de tipos únicos e inesquecíveis, com uma atenção detalhista para todo tipo de tiques de linguagens peculiares da época, desde um piloto de caça efeminado, que vive a base de remédios para lidar com a pressão, à um ciumento escandaloso, que encena uma tentativa de suicídio para recuperar a atenção dos demais.
"A festa estava animada. Laurie assistia a tudo com uma espécie de distanciamento. Depois de uma procura de anos, ele finalmente descobrira do que estava tentando fugir, porque havia recusado o primeiro convite de Sandy, e qual tinha sido seu problema com Charles. Era também o problema de nove entre cada dez pessoas que estavam ali aquela noite. Eles eram especialistas. Não se tratava somente de terem aceito as próprias limitações, como Laurie estava pronto para aceitar as suas, fiel à sua humanidade, se não ao seu sexo, e acrescentando uma humildade extra ao difícil estudo da experiência humana. Eles tinham se identificado com as suas limitações, faziam delas uma carreira. Afastaram-se de todas as outras realidades e enrodilharam-se num casulo, como num útero."
Ter sido escrito em 1953, uma década marcada pelo conformismo e intolerância à contestação, o livro já merecia louvores. Do ponto de vista literário, ter um final feliz numa época que ainda só tolerava uma narrativa gay enquanto tragédia - que Gregory Woods, em seu A History of Gay Literature, chamou de "o mito da bicha trágica" legado pelo julgamento de Oscar Wilde - é por si só uma ousadia, uma escolha política e ideológica em si.

Política também é a escolha de mostrar as elevadas discussões de Laurie, Ralph e Andrew baseadas nas leituras do Banquete e do Fedro de Platão (o título do livro é uma referência a este último: o auriga é o condutor da carruagem dos altos e baixos sentimentos do Homem), em contraste com o quáquáquá mundano e vulgar da comunidade gay que frequentam. É um voto de desconfiança, uma tomada de posição quanto à idéia de rótulos fixos que a organização de uma sociedade pode sugerir.
"Ele repetia insistentemente que eu era bicha. Eu nunca tinha ouvido a palavra e não gostei. Era como se estivesse me isolando do mundo na companhia de pessoas com as quais eu não tinha muita coisa em comum, uma metade detestando a outra, apenas permanecendo juntas para terem apoio mútuo".
Mary Renault tem uma sensibilidade tremenda para capturar os detalhes sutis e ao mesmo tempo complexos da evolução dos sentimentos de seus personagens. Seu personagens falam abertamente sobre sentimentos, mas a escolha de palavras é elíptica, sempre evitando a abordagem direta que, na sua visão, poderia vulgarizasse esses mesmos sentimentos ao enclausurá-los em rótulos (e assustar leitores da época). Outro contraste é o mundo sombrio da Europa em guerra, com a libertação bucólica e pastoral proporcionada pela aceitação emocional de seus personagens.
Acima de tudo é um livro intensamente afetivo.

Mary Renault

Mary Renault dedicou a maior parte de sua carreira à romances históricos ambientados na Grécia Antiga, em geral sobre Alexandre da Macedônia (O Menino Persa foi uma das bases para o filme Alexandre, de Oliver Stone). Tudo leva a crer, porém, que O Auriga tenha sido seu romance mais pessoal, ao unir duas experiências próprias: assim como Laurie e Ralph, foi na escola de enfermagem que ela conheceu sua companheira de toda a vida, Julie Mullard, e assim como Andrew no livro, as duas atendeream os feridos de Dunquerque durante a II Guerra. A ética do amor e a identidade própria dentro de uma comunidade sendo seus temas mais caros.

A edição de O Auriga em português, pela Mandarim é facilmente encontrada em sebos. O livro pode ser encontrado facilmente.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Moby Dick


Moby Dick, de Herman Melville
EUA, 1851
Várias edições. Nas passagens citadas aqui, usei a da Cosac Naify, lançada em 2009 e a mais recomendada, com tradução de Alexandre Barbosa de Sousa e Irene Hirsch.

Moby Dick é uma obra tão colossal quanto ampla no escopo, e apontar o subtexto homoerótico do livro tampouco é alguma novidade. Na Renascença Americana, Melville está para a prosa como Whalt Whitman para a poesia.

Em seu A History of Gay Literature, Gregory Woods já aponta o modo como o olhar de Melville se foca, em suas palavras, "numa masculinidade dinâmica, expressa e completada por meio da ação física". Já em Hero, Captain, Stranger: Male Friendship, Social Critique and Literary Form in the Sea Novels of Herman Melville, Robert K. Martin afimra que:
"Melville claramente desgosta de homens efeminados; assim como Whitman, seu ideal sexual literário envolve amor entre dois homens, e não um homem e um garoto, ou um homem e uma pseudo-mulher. O homem efeminado é o homem ultracivilizado, que adotou os valores da civilização (ou seja, a mulher) em oposição aos valores primitivos (ou seja, o homem). Este ideal se torna assim a androginía que representa a integração entre os valores civilizados e primitivos, entre homem e mulher. Esta androginia não deve ser confundida com efeminação; para Melville, androginia indica autosuficiência e completude, enquanto efeminação indica fraqueza, indulgência e parcialidade".
Apertando o espermacete
A atração erótica entre marinheiros é abordada na obra de Melville de modo mais direto em Billy Budd, mas em Moby Dick ela funciona não só como fator de coesão mas de destruição entre os personagens - se levarmos em conta a grande baleia branca, uma cachalote (sperm whale) como símbolo fálico.
Dentre as centenas de interpretações a que a baleia se presta, dentro de um romance altamente simbólico, o sperm de seu nome original (em português traduz-se "espermacete", a cera branca produzida na cabeça da cachalote e que, ao longo da história e até fins do século XIX, serviu para a fabricação de velas) era, nos primórdios da indústria baleeira, realmente confundido com o esperma do animal. E nem vamos entrar no mérito fonético entre marinheiros (seamen) e sêmen (semen). O trecho abaixo, uma das passagens mais memoráveis do livro, fala por si só:
“Apertar! Apertar! Apertar! Durante toda a manhã, eu apertei aquele espermacete até que quase me fundi com ele; apertei o espermacete até que um tipo estranho de insanidade tomou conta de mim, e vi-me apertando, sem o saber, as mãos dos meus companheiros dentro dele, confundindo as mãos com os caroços macios. Essa tarefa cria um sentimento tão forte, afetuoso, amistoso, amoroso, que, por fim, eu apertava as suas mãos sem parar e olhava nos seus olhos com ternura, como se quisesse dizer: Ó, bem-amados semelhantes, por que continuar a acalentar as amarguras em nosso convívio, ou tomar conhecimento do mau humor e da inveja? Vinde, vamos apertar as mãos à nossa volta; não, vamos nos apertar uns contra os outros, vamos nos apertar universalmente no leite e no espermacete da bondade.” Cap. 94 - Um aperto de mão
Se Woods considera essa passagem uma das mais abertamente homoeróticas da literatura do século dezenove, Martin vai mais longe: afirma que "toda descrição positiva de sexualidade em Melville é uma descrição de masturbação masculina, com frequência, mutual. Nunca há nenhuma descrição de sexualidade envolvendo penetração" - cita, para além de Moby Dick, passagens de White Jacket e Redburn. No campo simbólico, a palavra "espermacete" é com frequência usada no texto de Melville para se referir à própria baleia, numa obra mergulhada em outros simbolismos fálicos, como os arpões, o próprio Ahab simbolicamente castrado com sua perna decepada, etc.
 

Relação selada sobre a cama
Se até aqui tratamos apenas do aspecto mais latente e simbólico, há que se levar em conta também a relação semi-erótica entre Ishmael e Queequeeg, relação esta que se inicia no compartilhar de uma cama de pensão - que, ressalta o texto, serviu pouco antes à noite de núpcias da senhoria.
"Ao acordar na manhã seguinte, ao romper do dia, deparei com o braço de Queequeeg largado sobre mim da forma mais carinhosa e afetuosa. Você teria pensado que eu era a esposa dele".
O pesquisador inglês Rictor Norton, em seu ensaio sobre o homoerotismo na obra de Melville, nota que o comportamento de Ishmael antecipando a chegada do quase-bárbaro Queequeeg ao quarto ecoa o de uma noiva assustada, ante a visão da "cabeça calva avermelhada" (bald purplish head), deste purple rascal (que pode ser traduzido como "maroto avermelhado"), dentre outros eufemismos facilmente identificáveis. A partir do capítulo 4, A colcha, sucedem as comparações matrimoniais entre os dois, do qual resulta, inclusive, na visão da machadinha como filho simbólico da dupla:
"Mas pouco a pouco fui recordando todos os acontecimentos da noite passada e por fim a comicidade da situação prevaleceu. Tentei tirar seu braço – desfazer seu abraço de noivo – mas, como ele estava dormindo, ele me abraçava com força, como se nada além da morte pudesse nos separar. Tentei acordá-lo – “Queequeg!” – mas sua única resposta foi um ronco. Virei-me de lado, e era como se houvesse uma coleira de cavalo em meu pescoço; de repente senti um leve arranhão. Tirei a colcha e vi que a machadinha dormia ao lado do selvagem, como se fosse um bebê com cabeça de machado".
Culpa e casamento
Mais adiante, Ishmael escuta um sermão onde não faltam referências ao "adúltero que fugiu da prisão em Gomorra" ou ao "assassino de Sodoma" que o faz se sentir culpado, até ocorrer seu reencontro com Queequeeg no capítulo seguinte, com um ritual simbólico de união:
"Ele parecia ter se afeiçoado a mim tão natural e espontaneamente quanto eu a ele; e, quando acabamos de fumar, encostou sua testa na minha, puxou-me pela cintura e disse que a partir daquele momento estávamos casados; o que significava no dizer de seu país que éramos amigos do peito; morreria por mim de boa vontade, se preciso fosse. Num conterrâneo, este súbito ardor de amizade teria parecido um pouco prematuro, algo bastante suspeito; mas a este simples selvagem as tais velhas regras não se aplicavam".

Ao que conclui
"Não sei por quê; mas não há lugar mais propício para confidências entre amigos do que uma cama. Marido e mulher, dizem, ali abrem até o fundo da alma um para o outro; e alguns casais idosos muitas vezes ficam deitados conversando sobre os velhos tempos até o amanhecer. E assim, na lua-de-mel de nosso coração, eu e Queequeg ficamos deitados – um casal aconchegante e amoroso".
No c capítulo 11, Camisola, abre-se numa espécie de lua-de-mel, em que o corpo do outro surge como porto seguro:
"Ficamos assim deitados na cama, conversando e cochilando de pouco em pouco, e de vez em quando Queequeg jogava suas pernas morenas e tatuadas com carinho sobre as minhas, tirando-as em seguida; havia total liberdade entre a gente, éramos tranqüilos e confidentes; por fim, como conseqüência das nossas confabulações, perdemos o pouco sono que nos restava e sentimos vontade de nos levantar de novo, embora a alvorada ainda estivesse muito distante no futuro".
Com uma reflexão sobre o conforto do calor do corpo, feita no momento em que ambos estão debaixo dos lençois:
"Ainda mais, digo, porque para se desfrutar de fato do calor do corpo é preciso que uma pequena parte sua ainda esteja fria, pois não há qualidade neste mundo que não o seja por contraste. Nada existe em si mesmo. Quando você se gaba de se sentir bem confortável e fica assim por um longo tempo, então já não se pode mais dizer que você continua confortável do mesmo modo. Porém, se, como no caso de Queequeg e eu na cama, se a ponta de seu nariz ou o topo de sua cabeça está um pouquinho frio, então na percepção geral você sente o mais delicioso e inequívoco calor. Por essa razão, um quarto de dormir nunca deveria ter lareira, o que é um dos desconfortos luxuosos do rico. Porque o apogeu desta espécie de delícia é não ter nada além do cobertor entre você e seu corpo abrigado e o frio do ar externo. Então ali você se deita como a única centelha de calor no coração de um cristal ártico".
A essas alturas, deve se lembrar que Queequeeg é um nativo de uma ilha fictícia do Pacífico Sul, e já na época de Melville, era bem sabido que entre tribos da Polinéisa (por onde ele navegou) uniões entre membros do mesmo sexo eram bastante comuns (afora a questão de Queequeeg ser um canibal - um homem que devora outros homens). De todo modo, sua caracterização como portador de "hábitos selvagens" ou estrangeiros, remete à lembrança de que, para cada nação européia, a sodomia era sempre o "vício estrangeiro" - os "hábitos franceses" para os ingleses, "os vícios italianos" para os franceses, e assim por diante. Embora Queequeeg vá perdendo importância na trama com o desenrolar da viagem do Pequod, será no caixão que o canibal construira para si mesmo que Ishmael encontrará sua salvação, ocupando nele o espaço reservado ao corpo do outro.

Em um autor e obra tão inegavelmente chegados à simbolismos, as escolhas de palavras e momentos que caracterizam o relacionamento entre Ishmael e Queequeeg são tão latentes que não creio que se pudesse considerá-las sequer codificadas - são o mais próximo, talvez, que um autor conseguiria chegar, em seu tempo, de abordar uma relação que, se não chega a ser sexual, é certamente homoafetiva. Claro que um leitor pode tomá-las apenas no sentido mais estrito e literal, se assim quiser, excluindo a interpretação de uma relação afetiva entre os dois - mas para isso seria necessário abdicar também de todas as outras interpretações simbólicas do livro, o que, convenhamos, tira todo o sentido da obra em si.

Herman Melville
Notas:
• Sobre a sexualidade do próprio Melville não há, e provavelmente nunca haverá, uma resposta definitiva.  Sabe-se com certeza que não suportava a companhia da própria esposa, preferindo a de marinheiros nos portos e bares, além de alistar-se em diversas viagens marítimas. Tinha uma completa devoção pelo amigo Nathaniel Hawthorne, e há uma referência minima perdida em algum lugar entre ele e uma estátua de Antinoo, o amante-deificado do imperador romano Adriano, que durante o século XIX era um símbolo e objeto de culto entre colecionadores homossexuais, um dos muitos códigos de identificação utilizados.

• Se não faltam edições em português, recomendo a edição da Cosac Naify, seja pelo projeto gráfico (talvez a única em português a dar conta, fisicamente, do aspecto colossal do livro,), seja pelo excelente fortuna crítica anexa, com material de apoio, apêndices, ilustrações e mapas.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Linha da Beleza

A Linha da Beleza, de Alan Hollinghurst
The Line of Beauty
Inglaterra, 2004
Publicado no Brasil pela Nova Fronteira em 2005 em tradução de Vera Whately

Numa tentativa de resumo temático e emocional do que é A Linha da Beleza e do impacto que esse livro teve sobre mim, listaria da seguinte forma: um rodamoinho lento e meticuloso do conservadorismo social dos anos 80, da Era Tatcher na Inglaterra, as consequências éticas do liberalismo econômico, tudo girando num rodamoinho meticuloso que tenta englobar todo o ethos de uma década, de yuppies deslumbrados com dinheiro fácil e turbinados por cocaína, o Scarface do DePalma, música clássica, Henry James e o erotismo colorido e lustroso da cena gay londrina oitentista, dos clubes do Soho e das festas nos casarões de Notting Hill. Dando liga nisso, a sombra da AIDS, o fim-de-festa e ressaca dessa geração.

É o quinto romance de Allan Hollinghurst, que tem um estilo tão elegante e fluído que por vezes dispensa a necessidade de uma trama em si. Eu poderia ficar acompanhando o protagonista Nick Guest indefinidamente flanando no mundo dos ricos e cheirados londrinos da década. A história começa em 1983: Nick Guest é gay e assumido, recém saído da faculdade de Letras, e vai morar meio que de favor, meio como agregado, na casa de seu amigo hetero Toby, cujo pai é um politico conservador de baixo-clero, cuja maior ambição é ter Margaret Tatcher como convidada em alguma festa de sua casa. Catherine, irmã de Toby e amiga de Nick, é uma maníaca depressiva com tendências suicidas, e o próprio Toby é o típico filho de classe alta que ganha coisas cada vez mais caras para suprir sua falta de interesses pelas coisas em si. A função de Nick nessa família é meio nebulosa - vários personagens questionam, afinal, o que ele faz ali? Seu papel é o de servir como "esteta oficial " da família Fedden, para quem arte existe apenas como uma forma de se adquirir status social -  quadros, saraus, discussões literárias com tomadas de opinião calculadamente inofensivas, baseadas no senso comum. Basicamente, filisteus ricos.

O livro é dividido em três partes: a primeira, o Acorde do Amor, foca na chegada de Nick na casa dos Fedden em Notting Hill, a efervescência cultural de Portobello Road e suas experiências com o primeiro namorado, um rapaz negro de subúrbio. Nick está deslumbrado com o mundo e os modos dos ricos e indiferentes, e numa passagem memorável, vai a estréia de Scarface, onde Hollinghurst dá o tom que está por vir mais adiante.
"Os críticos já haviam descrito Scarface como um filme "operístico", talvez uma forma de dizerem que era latino, barulhento e bombástico. (...) Era irracional, mas a irracionalidade ofuscante do filme parecia lançar uma suspeita de irrealidade sobre tudo o mais; seu caso com Leo, que era tão estranho, tão recente, tão irreconhecível, pareceu envolto numa atmosfera de dúvida crua mas penetrante. Ficou imaginando se teria notado Leo um ano atrás, na confusão da saída do cinema, ou guardado sua imagem e levado para casa sem conseguir dormir, pensando nele. Provavelmente não, pois uma das manias de Leo era manter-se sentado até o final de todos os créditos. De fato, só depois que tudo aquilo acabou é que Leo saiu no foyer, piscando e meneando a cabeça, intrigado com a expressão preocupada de Nick."
Na segunda parte, A quem pertence essa beleza?, pula-se para 1986, quando Nick está envolvido emocional e sexualmente com Wani Ouradi, um jovem herdeiro enrustido, filho de um milionário libanês de uma rede de supermercados. Juntos, os dois montam uma produtra , com a intenção de adaptar Henry James para o cinema (uma referência indireta às produções Merchant/Ivory), mas que na prática só serve para dar sentido ao ócio regado à cocaína dos dois. A "linha da beleza" do título - a linha curvilínea que contrasta com as formas retas e simétricas - surge com frequência, seja no título da produtora ("Ogiva"), nas carreiras de cocaína que os personagens cheiram incessantemente, ou na curvatura do traseiro do namorado de Nick.

Na terceira parte (sem spoilers), "O fim da linha", salta-se para 1987. O fim da festa oitentista do dinheiro fácil, é o momento da queda, do acúmulo de escândalos políticos, de escessos de droga e sexo que se tornam cada vez mais impessoais, mecânicos e frios, e quando os rumores da "doença" começam a se intensificar e neutralizam a liberação sexual do início da década.

É sobretudo um livro "de época", a trama avançando por uma série de elaborados eventos sociais - um sarau de música, férias na França, uma festa para Tatcher - onde Hollinghurst explora a teia de relações e sensibilidades entre seus personagens um pouco como Jane Austen. Se Jane Austen escrevesse nos anos oitenta e cheirasse muito pó.

Ainda sem spoilers, esse livro me destruiu emocionalmente. Não sei quantos dias fiquei numa ressaca literária, sem vontade de pegar outra coisa para ler, tentando digerir o final aberto que se abre para interpretações ambíguas. A jornada pessoal de Nick Guest, um dos grandes personagens da literatura inglesa do século 21, é a de uma tomada de consciência dolorosa, de que a aceitação condescendente )na figura da família Fedden) é apenas a fachada socialmente conveniente psicológica e moralmente fraca. E plenamente irrecuperável, uma vez que é rota desde a base.

O autor, Allan Hollinghurst
Allan Hollinghurst nasceu em 1954 na Inglaterra, e é autor de diversas obras de poesia e ficção, entre os quais A Biblioteca da Piscina, The Stranger's Child e The Spell. A Linha da Beleza ganhou o Man Booker Prize em 2004, e em 2006 foi adaptado para uma minissérie da BBC em três partes, com Dan Stevens (de Downton Abbey) no papel de Nick Guest, e dirigida por Andrew Davies (de O Fugitivo). Um trailer pode ser visto pode ser visto aqui.

Abrindo os trabalhos

Suponho que ninguém goste muito de rótulos, e imagino que seja basicamente pelo elemento redutor contido na ideia de que toda uma gama de possibilidades seja simplificada e reduzida à um único aspecto. Contudo, quando se trata de Literatura, ao menos no que tange a organização de uma prateleira de livros, creio que a aplicação de rótulos parece benéfica quando ajuda um leitor a encontrar mais obras no mesmo tema, estilo ou gênero.
A ideia desse blog veio ao longo do tempo, inspirada e motivada por conversas com amigos e conhecidos, reais e virtuais. A inspiração veio, inicialmente, quando visitei a Waterstone's de Picadilly, em Londres, que clamava ser a maior livraria da Europa. E lá, o que mais me impressionou foi a diversidade na separação dos livros nas prateleiras. Não uma grande sessão de literatura nacional e outra de literatura estrangeira, como acontece geralmente aqui, mas sessões específicas por temas - "romances históricos", "mangás", chegando até subgêneros específicos como "policiais escandinavos", e "literatura gay", esta com uma série de subdivisões. E por literatura gay não se entenda os livros de fotografia homoerótica lustrosos que se esconde nos cantinhos das lojas, mas autores e obras, de gêneros e subgêneros como romances históricos ou ficções literárias, que fossem de interesse para leitores LGBT.
Mas o que seria uma leitura de interesse gay? Aceitando-se que a experiência da leitura é e sempre será individual, e um livro responde ou incita questionamentos ao leitor conforme o tipo de ansiedade ou experiências muito particulares à sua vida pessoal, a certo momento notei-se que a grande maioria dos livros que lia tratavam de personagens que nunca precisaram lidar com aceitação ou não de uma identidade sexual, ou que isso influenciasse na sua forma de interagir com outros personagens. Quando a desculpa da universalidade do personagem serve apenas ao propósito de escrever (mais uma) história de homem branco hétero cristão de classe média, a universalidade se perde - é apenas a imposição de uma leitura muito restrita sobre o todo. Ou, em outros casos (o Ishmael de Moby Dick é um, o narrador de Bonequinha de Luxo é outro), a ausência de uma clara alusão à sexualidade do personagem leva à interpretação de que ele seja hetero, mesmo que vários sinais e códigos tenham sido espalhados pelo autor indicando o contrário. Ou pior ainda, quando uma voz de intensão claramente homossexual, como em metade dos Sonetos de Shakespeare, é heteronormatizada ao longo do tempo por pudores de seus tradutores, que trocam o sexo do objeto de louvores do masculino para o feminino.

Por último, é importante frisar que os comentários que faço neste blog são pessoais, e derivam da relação pessoal que desenvolvi com a leitura de cada livro, independente da importância histórica que este ou aquele teve (quando é o caso, eu saliento), ou do quanto a excelência estilística de um determinado autor indifere na minha apreciação puramente emocional do texto. A seleção dos livros foi feita com base nos meus dois critérios favoritos: o acaso e a aleatoriedade. A razão dessa pesquisa não teve nada de acadêmico, e foi razoavelmente orientada por A History of Gay Literature: The Male Tradition, de Gregory Woods, livro que busca estabelecer uma espécie de cânone ocidental de literatura de interesse homoerótico com foco na experiência gay masculina. Não tenho interesse em discussões acadêmicas (até por falta de maior embasamento teórico da minha parte, já que passei longe da faculdade de Letras) e se este blog possui um objetivo, pode-se dizer que é o de promover livros que, na minha opinião, merecem ser lembrados e discutidos. Além de servir, eventualmente, como guia de leitura para quem se interessa pelo assunto.

* * *


Serviço:
A History of Gay Literature - The Male Tradition
Autor: Gregory Woods
Editora: Yale University Press
Ano: 1999
Tem na Amazon e na Livraria Cultura.

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