sábado, 28 de maio de 2016

Giovanni

Giovanni, de James Baldwin
Giovanni’s Room
EUA, 1956
Publicado no Brasil pela Editora Abril em 1981.

Quando o livro abre, o americano David está numa casa no sul da França, sua noiva Hella está embarcando de volta para os EUA, e seu amante Giovanni está para ser enforcado. David lembra de sua infância, de suas primeiras experiências com outro garoto, no Brooklyn, o qual logo após terem a primeira experiência sexual, David passa a importunar e praticar bullying como forma de autoafirmação. Lembra da relação complicada com o pai alcoolatra e fracassado. David passa a ter problemas com álcool na adolescência, sofre um acidente, e por fim convence o pai a lhe dar sua parte da herança materna, no que parte para a França. Em Paris, David frequenta o bar de Guillaume, frequentado também por um público exclusivamente gay, onde trabalha o bartender Giovanni. Ali David e Giovanni começam um relacionamento, e chega de contar a história — já sabemos que Giovanni está para ser enforcado por algum crime futuro, desde as primeiras páginas.

Na lista de livros que todos parecem amar menos eu, está o Giovanni de James Baldwin. Não é por falta de méritos literários, pelo contrário. O texto de Baldwin é elegante, suas quebras de linearidade da narrativa funcionam de modo fluído, é um livro extremamente bem escrito. Mas livros não funcionam de modo independente ao leitor, e a todo momento, o tom confessional e doloroso do narrador me fazia pensar num livro escrito para o leitor de outra época, para um leitor desesperado por representatividade mas que sabe que nenhuma outra narrativa seria aceita de modo mainstream, se não reservasse para si tons trágicos. Õ livro é dos anos 50, época que Gregory Woods, em A History of Gay Literature, nomeia como Post-War Tragic Fiction, "Ficção Trágica do Pós-Guerra".

Em que pese a coragem de Baldwin em lançá-lo mesmo assim, contra todas as recomendações de seu editor (que sugeriu que ele queimasse os originais), um escritor que, já sendo negro numa sociedade racista, calhou de ser também homossexual numa sociedade conservadora, e precisou emigrar ele próprio para a França ao concluir que os EUA de então simplesmente não tinham espaço algum para ele. Giovanni é sobretudo um livro sobre alienação social. David é um personagem deprimente, sua imobilidade passiva é irritante; Giovanni é um típico italiano misógino, é difícil concluir uma solução diferente de tristeza e tragédia para personagens assim. Mas o texto de Baldwin encontra pequenos momentos de beleza e crueza que me mantiveram preso ao texto.

James Baldwin
Notas: sobre a edição da Abril Cultural, me pergunto o motivo da escolha de traduzir Giovanni's Room ("O Quarto de Giovanni") apenas como Giovanni. Há algo na menção ao quarto que seja intrinsecamente problemático para o público de 1981 (ano do lançamento da edição mais recente?)

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Samir, você saberia dizer quem é o tradutor de "Giovanni" na edição da Civilização Brasileira, de 1967? Procurei, mas não encontrei o nome do tradutor. Sobre a alteração do título, eu havia me perguntado a mesma coisa.

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  3. Oi Luciene. Na edição que eu tenho, da Abril Cultural dos anos oitenta, a tradução é de Affonso Biacheyre. Se há uma tradução mais antiga, é possível que seja mesma.

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