The Line of Beauty
Inglaterra, 2004
Publicado no Brasil pela Nova Fronteira em 2005 em tradução de Vera Whately
É o quinto romance de Allan Hollinghurst, que tem um estilo tão elegante e fluído que por vezes dispensa a necessidade de uma trama em si. Eu poderia ficar acompanhando o protagonista Nick Guest indefinidamente flanando no mundo dos ricos e cheirados londrinos da década. A história começa em 1983: Nick Guest é gay e assumido, recém saído da faculdade de Letras, e vai morar meio que de favor, meio como agregado, na casa de seu amigo hetero Toby, cujo pai é um politico conservador de baixo-clero, cuja maior ambição é ter Margaret Tatcher como convidada em alguma festa de sua casa. Catherine, irmã de Toby e amiga de Nick, é uma maníaca depressiva com tendências suicidas, e o próprio Toby é o típico filho de classe alta que ganha coisas cada vez mais caras para suprir sua falta de interesses pelas coisas em si. A função de Nick nessa família é meio nebulosa - vários personagens questionam, afinal, o que ele faz ali? Seu papel é o de servir como "esteta oficial " da família Fedden, para quem arte existe apenas como uma forma de se adquirir status social - quadros, saraus, discussões literárias com tomadas de opinião calculadamente inofensivas, baseadas no senso comum. Basicamente, filisteus ricos.
O livro é dividido em três partes: a primeira, o Acorde do Amor, foca na chegada de Nick na casa dos Fedden em Notting Hill, a efervescência cultural de Portobello Road e suas experiências com o primeiro namorado, um rapaz negro de subúrbio. Nick está deslumbrado com o mundo e os modos dos ricos e indiferentes, e numa passagem memorável, vai a estréia de Scarface, onde Hollinghurst dá o tom que está por vir mais adiante.
Na segunda parte, A quem pertence essa beleza?, pula-se para 1986, quando Nick está envolvido emocional e sexualmente com Wani Ouradi, um jovem herdeiro enrustido, filho de um milionário libanês de uma rede de supermercados. Juntos, os dois montam uma produtra , com a intenção de adaptar Henry James para o cinema (uma referência indireta às produções Merchant/Ivory), mas que na prática só serve para dar sentido ao ócio regado à cocaína dos dois. A "linha da beleza" do título - a linha curvilínea que contrasta com as formas retas e simétricas - surge com frequência, seja no título da produtora ("Ogiva"), nas carreiras de cocaína que os personagens cheiram incessantemente, ou na curvatura do traseiro do namorado de Nick."Os críticos já haviam descrito Scarface como um filme "operístico", talvez uma forma de dizerem que era latino, barulhento e bombástico. (...) Era irracional, mas a irracionalidade ofuscante do filme parecia lançar uma suspeita de irrealidade sobre tudo o mais; seu caso com Leo, que era tão estranho, tão recente, tão irreconhecível, pareceu envolto numa atmosfera de dúvida crua mas penetrante. Ficou imaginando se teria notado Leo um ano atrás, na confusão da saída do cinema, ou guardado sua imagem e levado para casa sem conseguir dormir, pensando nele. Provavelmente não, pois uma das manias de Leo era manter-se sentado até o final de todos os créditos. De fato, só depois que tudo aquilo acabou é que Leo saiu no foyer, piscando e meneando a cabeça, intrigado com a expressão preocupada de Nick."
Na terceira parte (sem spoilers), "O fim da linha", salta-se para 1987. O fim da festa oitentista do dinheiro fácil, é o momento da queda, do acúmulo de escândalos políticos, de escessos de droga e sexo que se tornam cada vez mais impessoais, mecânicos e frios, e quando os rumores da "doença" começam a se intensificar e neutralizam a liberação sexual do início da década.
É sobretudo um livro "de época", a trama avançando por uma série de elaborados eventos sociais - um sarau de música, férias na França, uma festa para Tatcher - onde Hollinghurst explora a teia de relações e sensibilidades entre seus personagens um pouco como Jane Austen. Se Jane Austen escrevesse nos anos oitenta e cheirasse muito pó.
Ainda sem spoilers, esse livro me destruiu emocionalmente. Não sei quantos dias fiquei numa ressaca literária, sem vontade de pegar outra coisa para ler, tentando digerir o final aberto que se abre para interpretações ambíguas. A jornada pessoal de Nick Guest, um dos grandes personagens da literatura inglesa do século 21, é a de uma tomada de consciência dolorosa, de que a aceitação condescendente )na figura da família Fedden) é apenas a fachada socialmente conveniente psicológica e moralmente fraca. E plenamente irrecuperável, uma vez que é rota desde a base.
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O autor, Allan Hollinghurst |
Eu não lembro de nada disso. O seriado realmente não me marcou (não lembro de nada além do primeiro namorado do protagonista), mas pode ser que minha apreciação crítica na época não fosse das melhores. Após ver esse resumo, que vontade deu de ler logo.
ResponderExcluirAcho que já fiz essa pergunta, mas não lembro a resposta: qual dos dois do Hollinghurst você mais recomenda?
Olá. Recomendo os dois. Li primeiro A Linha da Beleza, para depois ler A Biblioteca da Piscina. Ambos tem protagonistas muito parecidos, embora com propostas diferentes. Talvez o final de A Biblioteca da Piscina deixe uma sensação meio incompleta, o que não acontece com a Linha da Beleza. Mas de toda forma, vai ser difícil não querer ler um na sequência do outro.
ResponderExcluirVou ler em breve também The Stranger's Child e The Spell, e colocarei resenhas destes também.