Publicado no Brasil pela Editora Globo em 2006, em tradução de Marcelo Pen.
Edward Morgan Forster já era conhecido como o autor de Retorno a Howard's End e Um Quarto com Vista, quando começou a escrever Maurice entre 1913 e 1914, às vésperas da I Guerra. Segundo suas instruções, o romance porém só foi publicado após sua morte, em 1971 - para um inglês eduardiano como Forster, sair do armário era pior que a morte. O livro é dedicado "para um ano melhor".
Maurice nasceu de uma visita de Forster a um casal de amigos, o poeta Edward Carpenter e seu companheiro George Merrill, que viviam juntos e felizes apesar da época em que nasceram. Para Forster, que pertencia à geração que viu Oscar Wilde ser condenado, escrever uma história de amor homossexual com final feliz era uma necessidade de afirmação política. No pós-escrito ao livro, que acompanha a edição da Globo, Forster diz que "um final feliz era imperativo. Eu estava determinado que, ao menos na ficção, dois homens poderiam se apaixonar e assim permanecer eternamente dentro do espaço que a ficção permite". O grande conflito que o livro impõe aos seus personagens, mais do que suas identidades sexuais, acaba sendo a diferença de classes.
Maurice nasceu de uma visita de Forster a um casal de amigos, o poeta Edward Carpenter e seu companheiro George Merrill, que viviam juntos e felizes apesar da época em que nasceram. Para Forster, que pertencia à geração que viu Oscar Wilde ser condenado, escrever uma história de amor homossexual com final feliz era uma necessidade de afirmação política. No pós-escrito ao livro, que acompanha a edição da Globo, Forster diz que "um final feliz era imperativo. Eu estava determinado que, ao menos na ficção, dois homens poderiam se apaixonar e assim permanecer eternamente dentro do espaço que a ficção permite". O grande conflito que o livro impõe aos seus personagens, mais do que suas identidades sexuais, acaba sendo a diferença de classes.
“Uma natureza limitada como a de Maurice parece insensível, pois precisa de tempo até mesmo para sentir."
Uma Downton Abbey gay
Em Cambridge, onde estuda, o jovem de classe média Maurice conhece o aristocrático Clive Durham, herdeiro rico do interior. A atração é imediata. Os dois embarcam num relacionamento que, por força da interpretação de Clive para o Banquete e o Fedro de Platão, se mantém casto, ao crer que a consumação física o tornaria vulgar. O relacionamento atravessa a expulsão de Maurice da faculdade (por motivos alheios ao romance dos dois) e se alterna entre a propriedade rural de Penge, da família de Clive, e o apartamento londrino que os dois dividem enquanto "solteirões na cidade".
Mas Clive, após uma viagem decepcionante para a Grécia, supera o que acredita ser apenas uma fase, casa-se de modo burocrático e mantém um relacionamento com a esposa onde até o sexo é uma questão formal. Maurice, incapaz de lidar com a rejeição, se entrega à depressão, frequentando sessões de hipnose em busca de uma "cura gay". Aos poucos aceita a ideia de viver uma meia-vida, ocupando um espaço de semi-invisibilidade que cruza com outra: a social, na figura do jovem guarda-caças Alec. Há encontros e desencontros que culminam num momento tocante dentro do Museu Britânico, que conduz à um confronto final e tristonho entre Maurice e Clive.Em Cambridge, onde estuda, o jovem de classe média Maurice conhece o aristocrático Clive Durham, herdeiro rico do interior. A atração é imediata. Os dois embarcam num relacionamento que, por força da interpretação de Clive para o Banquete e o Fedro de Platão, se mantém casto, ao crer que a consumação física o tornaria vulgar. O relacionamento atravessa a expulsão de Maurice da faculdade (por motivos alheios ao romance dos dois) e se alterna entre a propriedade rural de Penge, da família de Clive, e o apartamento londrino que os dois dividem enquanto "solteirões na cidade".
"Despertara tarde para a felicidade, mas não para a força, e podia sentir uma alegria austera, como a de um guerreiro que ficou sem lar, mas que permanece plenamente armado.”
“Eu teria sido seu até o fim se quisesse ficar comigo, mas agora sou de outra pessoa - não posso ficar me lamuriando para sempre - e ele é meu de um modo que o ofende, mas por que não para de ficar sendo ofendido e se ocupa de sua própria felicidade?"Gregory Woods nota que, se Maurice tivesse um final trágico, teria sido tranquilamente publicado em sua época, quando a figura do homossexual era aceita contanto atada à necessidade de um final punitivo. "Forster reconheceu o que acontecia na literatura do recém-nomeado "indivíduo homossexual", mas não conseguia encontrar os recursos com o qual dar conta da nova tendência". De modo tragicômico, ao ser publicado em 1971, apenas dois anos após Stonewall, já não havia mais escândalo algum para causar.
Invisibilidades
A mesma invisibilidade que oculta Maurice dos olhos da sua sociedade, possibilita que ele viva plenamente e planeje sua fuga com Alex - para o interior, para o campo, para o espaço mítico dos bosques. O livro foi adaptado para os cinemas em 1987 pela dupla Ismail Merchant e James Ivory, dupla que se consagrara pouco antes com o oscarizado Uma Janela para o Amor (adaptado do Um Quarto com Vista), que nos anos seguinte ainda adaptaria Retorno a Howard's End de Forster e o Vestígios do Dia de Kazuo Ishiguro. Maurice concorreu ao Oscar de Melhor Figurino e lançou a carreira do então novato Hugh Grant como Clive e de Rupert Graves (o Lestrade da série Sherlock) como Alec.
A mesma invisibilidade que oculta Maurice dos olhos da sua sociedade, possibilita que ele viva plenamente e planeje sua fuga com Alex - para o interior, para o campo, para o espaço mítico dos bosques. O livro foi adaptado para os cinemas em 1987 pela dupla Ismail Merchant e James Ivory, dupla que se consagrara pouco antes com o oscarizado Uma Janela para o Amor (adaptado do Um Quarto com Vista), que nos anos seguinte ainda adaptaria Retorno a Howard's End de Forster e o Vestígios do Dia de Kazuo Ishiguro. Maurice concorreu ao Oscar de Melhor Figurino e lançou a carreira do então novato Hugh Grant como Clive e de Rupert Graves (o Lestrade da série Sherlock) como Alec.
Sobre o filme, Roger Ebert notou o grande desafio de relacionamento entre Maurice e Alec não era tanto a barreira do preconceito sexual, quando a questão de classes, cujas barreiras rígidas não dariam aos dois recursos para superar um relacionamento para além da atração sexual.
Curiosamente, as duas figuras reais que inspiraram o livro romperam de fato essa barreira: Edward Carpenter, poeta pioneiro no ativismo pelos direitos dos homossexuais, viveu por trinta anos junto de George Merrill, que tinha origem humilde e sem educação formal. Foi numa visita à casa de ambos que, num gesto de carinho informal, o modo como Merrill tocou as costas do rígido e enrustido Forster, que este teve a ideia de uma história sobre um relacionamento duradouro entre dois homens sendo construido. Em tempos que o casamento igualitário volta à pauta, a relevância de Maurice foi discutida num artigo da revista New Yorker.
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E. M. Forster |
Depois que Maurice foi escrito, houve uma mudança na atitude do público quanto a esse aspecto: a conversão da ignorância e terror em familiaridade e desprezo. Não foi a mudança para o qual Edward Carpenter havia lutado. Ele ansiara por um reconhecimento generoso de uma emoção e a reintegração de algo primitivo ao dia-a-dia. (...) Não haviamos percebido que aquilo que o público realmente abomina na homossexualidade não é a coisa em si, mas o fato de ser obrigado a pensar nela. Se ela pudesse ser inserida em nosso meio de forma desapercebida ou então fosse legalizada da noite para o dia, (...) haveria poucos protestos. Infelizmente, só pode ser legalizada por um parlamento, e membros do parlamento são forçados a pensar ou fingir que pensam. - E. M. Forster
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